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Uma carta de saudade para a Caprichosos de Pilares

Escrevo esta carta como o folião que sente um vazio. Aquele vazio de quem espera a piada que não vem, a crítica que não chega, o deboche que ninguém mais tem coragem de fazer.

CRÔNICA

Igor Schulenburg

1/16/2026

"Eu prometo..."

Em 1987, você cantou essa frase para o Brasil inteiro ouvir com aquela irreverência de quem não deve nada a ninguém. Subiu a rampa prometendo votar em quem tivesse "o saco roxo". Você prometeu cobrar, prometeu fiscalizar, prometeu não deixar a peteca cair.

Hoje, minha velha amiga de Pilares, sou eu quem te faço uma promessa.

Escrevo esta carta não como o jornalista que analisa quesitos, mas como o folião que sente um vazio na terça-feira de carnaval. Aquele vazio de quem espera a piada que não vem, a crítica que não chega, o deboche que ninguém mais tem coragem de fazer.

Eu prometo que te entendo.

Entendo que a vida dá voltas e que, às vezes, o luxo precisa dar lugar à luta. Sei que hoje o seu palco é outro. E que palco! A Intendente Magalhães te recebeu como a rainha que volta para casa. Ali, no meio do povo, sem as barreiras,. Mas será que você reencontrou o calor humano que sempre foi sua marca registrada? Ah, a tua risada...

O samba, vive de chão, de suor e de garganta. E isso, minha querida, você tem de sobra. Só de saber que você passa ali, pertinho da grade, sentindo o cheiro da cerveja e a vibração da massa, é lembrar o porquê de a gente amar essa festa.

Mas eu também prometo torcer.

Torcer para que, um dia, você volte a ocupar todos os espaços que são seus por direito. Não porque a Intendente seja pequena — ela é gigante na sua verdade —, mas porque o Rio de Janeiro inteiro merece ouvir o que você tem a dizer.

Você jamais será "lembrança de museu". Eu conto sempre para quem chegou agora quem foi Luiz Fernando Reis, quem foi Chico Spinoza. Vou explicar que, muito antes dos memes de internet, havia uma escola de samba que tinha a coragem de botar um nariz de palhaço na cara da sociedade e dizer: "Acorda!".

O carnaval ficou sério demais, Caprichosos. Ficou técnico, ficou bonito, ficou grandioso. Mas a gente sente falta daquela risada solta que só você sabia provocar. A gente sente falta do veneno que cura.

Então, fica aqui o meu trato. Enquanto você se reconstrói com a garra da sua comunidade, a gente mantém a chama acesa do lado de cá.

Até breve,

De um saudoso folião.