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Tradição, mérito e política: o nó das 15 escolas no Grupo Especial

Vários dos ganhos que justificaram a reforma de 2025 seriam parcial ou totalmente revertidos. É o tipo de paradoxo que merece atenção antes de qualquer voto em plenária.

CRÔNICA

Igor Schulenburg

4/6/2026

Mal o confete do Carnaval 2026 tinha sido varrido da Marquês de Sapucaí e o mundo do samba já tinha seu primeiro terremoto fora da avenida. Na tarde de sexta-feira, 20 de março, durante a cerimônia de posse no Palácio da Cidade, o novo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Cavaliere, fez o que talvez tenha sido o anúncio mais carnavalesco de uma posse na história da cidade: declarou que o Grupo Especial passará a ter 15 escolas de samba a partir do Carnaval 2027. Cinco por noite, nos três dias de desfile

A frase veio embalada em tom de celebração, com direito a referência afetiva à Mangueira, sua escola do coração, e à Portela, do padrinho político Eduardo Paes — que havia renunciado ao cargo horas antes para disputar o governo do estado. Uma transição de poder que já nasceu com cheiro de lança-perfume.

O anúncio, no entanto, não surgiu do nada. Dias antes, ainda como prefeito, Paes publicara nas redes sociais aquela que chamou de sua "última sugestão carnavalesca", endereçada a Cavaliere e ao presidente da LIESA, Gabriel David. A proposta: ampliar o Especial para cinco escolas por noite e, nesse primeiro ano, convidar três agremiações tradicionais — União da Ilha, Império Serrano e Estácio de Sá. O sucessor acatou em rede nacional, praticamente na mesma frase em que agradecia pela faixa. E assim, entre discursos institucionais e promessas de gestão, o carnaval virou pauta de primeiro escalão antes mesmo de qualquer secretário ser nomeado. Resta saber se o samba de enredo dessa história terá refrão ou só improviso.

A resposta de Gabriel David veio rápida, em vídeo publicado nas redes sociais. E diferente do tom festivo da posse, o presidente da LIESA trouxe a régua da realidade. Foi direto: uma mudança para 15 escolas é uma alteração regulamentar, e o regulamento do carnaval não pertence nem ao prefeito, nem ao presidente da liga. Quem decide são as 12 escolas do Grupo Especial, em plenária. Até o momento em que este texto foi escrito, essa plenária sequer havia sido convocada. O que existe é intenção política, não deliberação carnavalesca. Gabriel elencou três condições objetivas para que a proposta sequer chegue à mesa de votação: espaço físico, aumento de subvenção e previsibilidade financeira. A Cidade do Samba, na Gamboa, tem 14 barracões — dos quais 12 são ocupados pelas escolas do Especial e os outros dois são utilizados pela LIESA e como espaço de apoio compartilhado entre as agremiações, cujas demandas de produção já extrapolam seus próprios galpões. Não há onde colocar mais três escolas sem construir novos barracões ou encontrar uma solução estrutural. Além disso, Gabriel foi enfático: o repasse por escola no último carnaval foi de 14 milhões de reais. Trazer mais três agremiações sem aumentar o bolo significaria diluir recursos e, potencialmente, entregar um carnaval com 15 desfiles piores do que os 12 do ano anterior. E por fim, cobrou um projeto de lei que estabeleça datas fixas de pagamento — indexadas à data do carnaval — e reajuste anual pela inflação. Sem previsibilidade, não há planejamento. Sem planejamento, não há qualidade. Um detalhe que não passou despercebido: em nenhum momento do vídeo, Gabriel David citou nomes de escolas. Não falou em Estácio, nem em Ilha, nem em Império. Manteve o discurso institucional, falando em "três escolas a mais" e em "condições para viabilizar". Quem escolheu nomes foi o poder público.

E é justamente na escolha dos nomes que mora o nó mais delicado dessa história. A sugestão de Paes — abraçada por Cavaliere — é de que as três vagas sejam preenchidas por convite, com base na tradição: União da Ilha, Império Serrano e Estácio de Sá. São escolas com história inegável, títulos na prateleira, sambas que marcaram gerações. Ninguém em sã consciência questiona a grandeza dessas agremiações. Mas o carnaval também tem um critério esportivo. E nele, os números contam outra história. Na classificação final da Série Ouro 2026, a campeã União de Maricá — que já garantiu seu acesso — ficou com 269,4 pontos. Logo atrás, Império Serrano com 269,1, Unidos de Padre Miguel com 269,0, União da Ilha com 268,8, Em Cima da Hora com 268,7 e Estácio de Sá, também com 268,7. Se o critério fosse a ordem de classificação, as três vagas iriam para Império, Padre Miguel e Ilha. Pelo critério do convite, Padre Miguel — que ficou em terceiro lugar — ficaria de fora, e o Estácio — sexto colocado — entraria. Não se trata de desmerecer qualquer escola. Trata-se de perguntar: qual régua vale? E mais importante: quem define essa régua? Se a resposta for "o prefeito sugere", o carnaval entra num terreno em que a competição esportiva se subordina à conveniência política. E isso abre um precedente que pode ser muito mais perigoso do que qualquer rebaixamento.

Há ainda uma camada dessa discussão que pouca gente levanta, mas que deveria estar no centro do debate. Quando a LIESA aprovou a mudança para três dias de desfile, a partir de 2025, um dos principais argumentos foi justamente a redução do número de escolas por noite — de seis para quatro. Gabriel David, à época, listou 11 razões para a mudança, e entre elas estavam pontos cruciais: maior segurança na concentração, melhor logística no transporte de alegorias, mais tempo para montagem e desmontagem, e o fim dos desfiles que varavam a madrugada e entravam pela manhã — quando a luz natural da Sapucaí já não favorece o espetáculo e o público nas arquibancadas já deu lugar ao cansaço. Com quatro escolas por noite, cada agremiação ganhou dez minutos a mais de desfile — passando de 70 para 80 minutos no máximo — e o espetáculo termina em horário civilizado. Agora, com cinco escolas por noite, a conta muda. A última escola de cada dia empurraria seu desfile para horários que se aproximam dos antigos problemas. A concentração voltaria a ficar mais apertada. A questão da segurança, que foi um dos pilares da mudança, seria revisitada. O transporte de alegorias, com mais escolas disputando espaço na mesma janela de tempo, ficaria novamente congestionado. Em resumo: vários dos ganhos que justificaram a reforma de 2025 seriam parcial ou totalmente revertidos. É o tipo de paradoxo que merece atenção antes de qualquer voto em plenária.

O que se vê, quando se juntam todas as peças, é um movimento que começou como bastidor — lá em janeiro de 2025, quando o assunto apareceu pela primeira vez nas páginas de O Globo — e que foi ganhando corpo político ao longo dos meses. Passou pelo deputado Dionísio Lins, que defendeu a subida de três escolas da Série Ouro como forma de criar "uma democracia mais abrangente no samba". Passou por Gabriel David, que em agosto de 2025 já havia colocado preço na mudança: mais de 40 milhões em investimento adicional e três barracões novos. E desembocou numa cerimônia de posse, transformado em anúncio de governo. Há uma ironia nisso. O carnaval, que sempre existiu como território de autonomia das escolas — mesmo quando essa autonomia era, na prática, exercida por patronos e bicheiros — agora recebe de um prefeito empossado há minutos a definição de quantas e quais escolas devem desfilar. Eduardo Paes, com um pé na campanha ao governo e outro no palanque momesco, deixou a sugestão como quem deixa um presente de despedida. Cavaliere embrulhou e entregou. Gabriel David, com a paciência de quem sabe que a música é mais longa que o refrão, respondeu com planilha.

O carnaval do Rio de Janeiro é maior do que qualquer mandato. E a Sapucaí já viu promessas maiores do que essa se dissolverem antes do próximo ensaio técnico. Quinze escolas no Grupo Especial podem ser, sim, um avanço extraordinário para o espetáculo — desde que venham acompanhadas de infraestrutura, recursos e critérios transparentes. Mas se vierem na base do convite político, sem respeitar a ordem esportiva, sem resolver a equação dos barracões, sem garantir que cada uma das 15 tenha condições reais de competir, e às custas de problemas operacionais que a própria LIESA trabalhou para eliminar, o que se terá não é evolução. É um desfile bonito na teoria que pode tropeçar no primeiro carro alegórico da prática. A plenária ainda não foi convocada. Os barracões ainda não foram construídos. O dinheiro ainda não foi garantido. E enquanto isso, o samba segue — como sempre — esperando que a realidade alcance o sonho.