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O silêncio da irreverência: A Caprichosos e o Brasil que perdeu a graça
Ela nos ensinou que carnaval não precisava ser sério para ser bom. Que a crítica social doía mais quando vinha embrulhada na gargalhada. A Caprichosos não desfilava; ela debochava.
CRÔNICA
Igor Schulenburg
1/15/2026
Houve um tempo, não muito distante, em que uma escola de samba tinha licença poética para apontar o dedo na cara do Presidente da República, zombar da hiperinflação e colocar um nariz de palhaço na sociedade carioca em pleno horário nobre. E a gente aplaudia. A Caprichosos de Pilares não era apenas uma agremiação recreativa; era o editorial mais ácido do país, escrito em alegorias de papelão, acetato barato e uma genialidade que dinheiro nenhum comprava.
Mas o Brasil mudou. O humor ganhou travas, a política virou campo minado e o Carnaval do Grupo Especial, antes uma ópera popular anárquica, profissionalizou-se ao ponto de "plastificar" a irreverência. Nesse novo cenário de notas 10 técnicas, enredos patrocinados e camarotes climatizados, o veneno da Caprichosos parou de escorrer.
Hoje, guerreira na Série Bronze, a azul-e-branco de Pilares vive um paradoxo fascinante. Longe dos holofotes globais e da "gringolândia" da Sapucaí, ela reencontrou o seu povo na Nova Intendente. Mas a pergunta que ecoa entre um gole de cerveja e outro na arquibancada popular não é apenas sobre o destino de uma escola, mas sobre a alma da festa: será que a Caprichosos perdeu a graça, ou foi o Brasil que desaprendeu a brincar?
A genialidade do "Isopor Crítico"
Para entender o buraco que a Caprichosos deixou na Elite, é preciso lembrar o que ela representava nos anos 80 e 90. Enquanto as coirmãs disputavam quem tinha a pluma mais cara ou o faisão mais exuberante, a Caprichosos, sob a batuta de mestres como Luiz Fernando Reis e Chico Spinoza, fazia da escassez a sua estética.
Era o carnaval do "bumbum de fora pra chuchu". Era a escola que tinha coragem de cantar "Diretamente o povo escolhia o presidente" e zombar dos planos econômicos fracassados enquanto o país ainda tentava entender a democracia. A Caprichosos era o "Bobo da Corte" no sentido mais nobre da expressão shakespeariana: o único que tinha permissão para dizer a verdade ao Rei sem ter a cabeça cortada.
Ela nos ensinou que carnaval não precisava ser sério para ser bom. Que a crítica social doía mais quando vinha embrulhada na gargalhada. A Caprichosos não desfilava; ela debochava.
Quando o palhaço tentou virar Hamlet
A virada do milênio, contudo, trouxe a "Era dos Carnavalescos Artistas". O visual suntuoso passou a valer mais que a mensagem. O medo de perder décimos no quesito Enredo por ser "coloquial demais" ou "político demais" castrou as escolas.
A própria Caprichosos, em diversos momentos, tentou se enquadrar. Tentou ser séria, tentou ser luxuosa, tentou ser "correta". E ali, talvez, tenha começado o seu calvário. Problemas de gestão à parte — e eles não foram poucos, nem pequenos —, a escola sofreu de uma crise de identidade. O público olhava e não se via mais no espelho. O arlequim tirou a máscara para colocar uma gravata, e ninguém riu.
A trincheira da Intendente: Onde o samba resiste
Mas engana-se — e muito — quem pensa que a Caprichosos acabou. Quem vai à Nova Intendente assistir aos desfiles da Série Bronze encontra aquilo que o próprio "Caprichoso, assumido e orgulhoso", nunca deixou faltar, mas chegou a duvidar: vida.
A Intendente não é purgatório; é trincheira. É resistência cultural. Ali, o carnaval é um produto diferente. O público não é turista; é vizinho. A cerveja é de isopor, a grade é baixa, o suor é real. É o território onde o samba respira. E com ajuda de aparelhos ou não, vive. Sobrevive.
Nesse asfalto sagrado do subúrbio, a Caprichosos de Pilares se reconstruiu. Voltou a ter chão, voltou a ter comunidade cantando forte, voltou a ser abraçada por quem realmente importa. Ver a Caprichosos na Intendente é uma aula de humildade e força. É a prova de que CNPJs podem falir, mas bandeiras são imortais enquanto houver alguém para girá-las.
O silêncio que incomoda
Ainda assim, fica a saudade. Não da escola "pobre", mas da escola "livre". O Brasil de hoje, polarizado e muitas vezes mal-humorado, carece desesperadamente daquela Caprichosos da TV. Faltam enredos que nos façam rir das nossas próprias desgraças. Falta a banana para o preconceito, a sátira ao político de estimação, a leveza de quem sabe que, na quarta-feira de cinzas, tudo vira pó mesmo.
A Caprichosos de Pilares na Série Bronze é uma gigante entre nós, honrando o asfalto da Intendente com a dignidade de quem sabe de onde veio. Mas o silêncio de sua irreverência na elite do samba é um sintoma dos nossos tempos.
Talvez a Caprichosos não precise mudar para voltar a subir. Talvez seja o Brasil que precise, urgentemente, voltar a ter espírito de Caprichosos. Porque um país que não consegue rir de si mesmo no Carnaval já perdeu a festa faz tempo.




