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O samba me conta, a Sapucaí me ensina
E enquanto houver avenida, haverá estrada. A minha. De peito aberto, de olhos marejados, de alma rendida ao que não se explica — só se vive. "Do mestre dos mestres, herdei o tambor". E sigo batendo. Sigo cantando. Sigo aprendendo.
CRÔNICA
Igor Schulenburg
2/24/2026
São sete e quinze da manhã. Não sei se aqui em Joinville, onde eu moro, tem mais alguém acordado vendo o desfile das campeãs, o finalzinho, depois da maratona de 5 dias seguidos, na semana passada. Provavelmente não deve ter. A bateria rompeu o silêncio da madrugada, e passou a não existir mais a distância entre mim e a Marquês de Sapucaí. "Onde você for, eu vou com você" — e eu vou. Toda vez. Mesmo sem estar lá.
Este ciclo carnavalesco me levou a lugares que eu não esperava. Não falo de ruas ou barracões — falo de dentro. De madrugadas mergulhado em pesquisas que viraram textos, textos que viraram descobertas, descobertas que viraram pedaços de mim que eu nem sabia que existiam. Cada enredo que destrinchei, cada sinopse que li com olhos de quem quer entender e não apenas saber, me confirmou algo que eu já tinha em mente: a certeza de que o Carnaval me transforma toda vez que dou a ele o espaço que ele merece no meu ciclo.
E como eu abri espaço. Escrevi, pesquisei. Muito! E senti. Aquele frio na barriga que me move. Porque o Arquivo Sapucaí já não é apenas um acervo. É o meu jeito de dizer que essa história importa. Que cada mestre-sala e seus passos, cada porta-bandeira que flutua, cada ritmista marcando o surdo na pele e na alma, constroem uma história e é justo que isso seja registrado em algum lugar. E se esse lugar, em parte, sou eu — então que assim seja. Que a minha caminhada siga iluminada, "a falange formada, um coral cheio de amor." E aí, no meio de tudo, a avenida me dá um presente desses: ver um mestre ser celebrado em vida.
Ver alguém que dedicou mais de meio século ao samba receber, ali, debaixo daquelas luzes, o que tantos só ganham quando já não podem mais ouvir os aplausos. Porque a avenida entendeu antes da saudade. "Não esperamos a saudade pra cantar." Cantou agora. Em vida. Em festa. Em lágrimas que só quem ama assim consegue derramar. E eu vi. Mesmo de longe, eu vi. E me emocionei. Porque o Carnaval, às vezes, tem essa grandeza silenciosa — a de lembrar que antes de ser espetáculo, ele é gente. É um menino do morro que vira mestre. É o couro que vira sinfonia. É a vida inteira dedicada a fazer o chão tremer com verdade. E quando a avenida inteira canta junto, "somos todos um nessa avenida", um furacão que, de fato, nunca vai ter fim.
O Carnaval não se explica. Ele se vive. Nos detalhes de uma pesquisa que te faz perder a noção do tempo. Na emoção de um samba que te pega desprevenido. Na certeza de que isso aqui — esse amor, essa loucura - esse sou eu. Se o Igor de um ano atrás dizia que a Sapucaí ainda tinha muitos sambas para contar, o de agora confirma: ela não para. E eu também não. "Se eu for morrer de amor, que seja no samba." Porque a cada ciclo que se encerra, eu não me despeço.
Eu agradeço. Agradeço a cada samba que me ensinou algo novo, a cada história que me fez melhor, a cada amanhecer de Sapucaí que me lembrou por que eu faço o que faço. Agradeço ao que lava a alma dessa gente — e a minha. A cada vez que a bateria toca, minha alma sai lavada de novo.
O Carnaval não me deve nada. Mas eu devo a ele. E enquanto houver Avenida, haverá estrada, caminhadada. A minha. De peito aberto, de olhos marejados, de alma feliz e vivendo. Simples, prático e feliz.
"Na Paulicéia desvairada" eu sempre vou "mostrar minha emoção" e "ser feliz de novo". Então, "Me dê, me dá. Me dá, me dê"... Ah, nem precisa, deixa pro próximo ciclo que logo começa. Desse eu já ganhei meu presente. "Do mestre dos mestres, herdei o tambor."
E sigo batendo. Sigo cantando. Sigo aprendendo. Sempre em frente. Sempre Sapucaí.




