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Mestre Sacaca e a Estação Primeira do Amapá

Um estudo sobre enredo, identidade e os caminhos da Verde e Rosa rumo ao centenário.

ESTUDO DE CASO

Igor Schulenburg

2/9/2026

A ESCOLA QUE CONTA HISTÓRIAS

Desde 2019, quando a Mangueira pisou na Sapucaí cantando que "a história que a história não conta" era a que ela vinha revelar, a Verde e Rosa assumiu publicamente uma vocação: ser contadora de diferentes histórias brasileiras. Marielle, Jesus negro e favelado, os índios massacrados, Cartola, as baianas de acarajé, Alcione, o povo Bantu — personagens que ora foram silenciados, ora foram esquecidos, ora foram invisibilizados pela narrativa oficial do país.

Em maio de 2025, quando Sidnei França subiu ao palco para anunciar o enredo de 2026, muita gente se perguntou: quem diabos é Mestre Sacaca?

E era exatamente essa a questão. Se você não conhece, é porque a história não contou. E a Mangueira estava ali, de novo, pra contar.

COMO NASCE UM ENREDO NA MANGUEIRA

A liberdade criativa de Sidnei França

Quando Guanayra Firmino — a primeira mulher presidente da história da Mangueira — convidou Sidnei França para ser carnavalesco em 2025, ela fez algo que virou marca da gestão dela: deu carta branca. Nada de enredo pré-estabelecido. Nada de tema encomendado. Liberdade total. Foi assim em 2025, quando Sidnei trouxe os Bantu e a cultura da diáspora africana no Rio. E foi assim de novo em 2026.

Sidnei conta que a chama inicial foi buscar as efemérides centenárias de 2026 — o que completaria 100 anos naquele ano. Afinal, a própria Mangueira estava inaugurando o triênio do centenário (a escola completa 100 anos em 2028). Fazia sentido dialogar com outras centenas.

Foi nessa pesquisa, ao lado de Felipe Tinoco e Sthefanye Paz, que Sidnei esbarrou num nome que ele nunca tinha ouvido antes: Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca.

A descoberta da Amazônia Negra

Ao pesquisar, Sidnei descobriu algo que o impactou: o conceito contemporâneo de "Amazônia Negra". Quando pensamos em Amazônia, pensamos verde. Pensamos floresta. Pensamos índio. Mas raramente pensamos preto.

E aí veio o dado: dois terços da população do Amapá se autodeclara negra, segundo o Censo. A Amazônia também é preta. A Amazônia também é quilombo. A Amazônia também é diáspora africana misturada com sabedoria indígena.

Sacaca era a personificação disso. Descendente de escravos africanos, com herança indígena, ele navegou pelos rios, se embrenhou nas matas, aprendeu com negros e índios, e virou guardião de um saber ancestral afro-indígena.

Sidnei resume o processo assim: "Surgiu da busca por uma história que pudesse ser salva do cruel apagamento comumente imposto às figuras populares, bem como da vocação da Estação Primeira de Mangueira de jogar luz a nomes e fatos que expliquem o Brasil e o sentimento de brasilidade."

A conexão política que pavimentou o caminho

Aqui entra um detalhe importante, desses que só quem acompanha os bastidores do carnaval sabe: quem sugeriu o Amapá foi Marcelo Freixo, mangueirense de coração. Freixo se encantou com o estado a partir de conversas com o senador Davi Alcolumbre (amapaense) e com o governador Clécio Luís.

Foi Alcolumbre quem articulou o encontro entre a Mangueira e o governo do Amapá. E foi esse encontro que abriu as portas para a escola fazer uma etapa inédita do concurso de samba-enredo em Macapá — mas isso é assunto pro próximo capítulo.

O enredo foi anunciado oficialmente em 16 de maio de 2025: "Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra".

QUEM FOI RAIMUNDO DOS SANTOS SOUZA?

O curandeiro do povo preto e pobre

Raimundo dos Santos Souza nasceu em 21 de agosto de 1926, em Macapá, numa época em que o Amapá ainda pertencia ao Pará. Descendente de escravos africanos, cresceu acompanhando o pai — um trabalhador da extração de madeira — pelas matas.

Foi ali, na floresta, que Sacaca aprendeu o que nenhuma universidade ensinaria: o poder das ervas, das raízes, das cascas, das seivas. Ele virou curandeiro, benzedor, "doutor da floresta". Produzia garrafadas, chás, unguentos. Curava o povo preto e pobre que não tinha acesso a médico, a remédio, a hospital.

Deixou três livros publicados sobre plantas medicinais — verdadeiros manuais de sabedoria popular que hoje estão disponíveis em e-book. Apresentou por anos o programa "A Hora do Campo" na Rádio Difusora de Macapá, onde ensinava sobre as propriedades das plantas.

A Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) concedeu a ele, post mortem, o título de Doutor Honoris Causa. A Divine Academie Française (França) o homenageou como um dos dois únicos brasileiros a receber tal condecoração. Uma orquídea e um organismo aquático do Amapá levam seu nome. E o Museu Sacaca, em Macapá, é um dos principais pontos turísticos da capital.

O marabaixeiro que virou Rei Momo

Mas Sacaca não foi só curandeiro. Ele foi tocador de caixa de marabaixo — manifestação cultural afro-amapaense que mistura tambor, dança e espiritualidade. Ele confeccionava os próprios instrumentos. Ele foi Rei Momo do carnaval amapaense por 20 a 23 anos consecutivos. Sua escola do coração era a Boêmios do Laguinho.

Sacaca foi enredo de várias escolas do Amapá: Solidariedade, Piratas da Batucada, Boêmios do Laguinho, Império da Zona Norte. Ele circulava pelos terreiros de cultura, entre a Favela e o Laguinho, como diz a sinopse da Mangueira. Ele era folião, curandeiro, marabaixeiro.

O líder comunitário

Sacaca foi um dos fundadores da União dos Negros do Amapá (UNA) e da primeira associação de idosos do estado. Ele foi fundador do Bairro do Laguinho, onde morava. No esporte, foi massagista e técnico do Esporte Clube Macapá, sendo peça-chave no título do primeiro Copão da Amazônia, em 1975, ao lado do craque Bira. Casou-se com Madalena Souza, a primeira Miss Amapá. Tiveram 14 filhos. Morreu em 1999, aos 73 anos. Mas, como diz o enredo da Mangueira, ele não partiu, ele se enraizou. Virou árvore, virou rio, virou floresta. Virou a própria identidade tucuju.

A ESTRUTURA DO ENREDO — OS CINCO ENCANTOS

Sidnei França desenhou o desfile em cinco setores, cada um apresentando um "encanto tucuju" — uma dimensão da vida de Mestre Sacaca fundida com a cultura amapaense:

1. Encanto da Floresta

O extremo norte do Brasil, região do Oiapoque. A abertura do desfile acontece no ritual Turé — celebração de agradecimento aos seres do Outro Mundo. É o momento de invocar o espírito de Sacaca, o Xamã Babalaô. Jenipapo, urucum, caxixi. A Mangueira se pinta de verde-e-rosa amazônico.

2. Encanto dos Rios

Sacaca navegou. Pelos rios Amazonas, Oiapoque, Jari. Foi de regatão, entrando em contato com populações ribeirinhas, quilombolas, indígenas. Os rios foram o caminho das trocas, dos saberes, das curas. "Corre água, jorra a vida do Oiapoque ao Jari", canta o samba.

3. Encanto da Cura

O "Doutor da Floresta" em ação. Garrafadas, chás, unguentos, simpatias. A ciência do encanto. A farmácia da mata. O conhecimento ancestral que macera folha, casca e erva e engarrafa a cura. Esse é o coração do enredo: o homem que curou o povo preto e pobre com o que a terra dava.

4. Encanto dos Tambores

Marabaixo, sairé, terreiros de cultura. Sacaca foi Rei Momo, tocou em escolas de samba. A "marcação do marabaixo", os ladrões e ladainhas que ecoam dos porões. A musicalidade afro-amapaense que liga terreiro, barracão e festa. "A magia do meu tambor te encantou no Jequitibá / Chamei o povo daqui, juntei o povo de lá / Na Estação Primeira do Amapá."

5. Encanto da Natureza Eterna

A simbiose. Sacaca não morreu, ele se eternizou. Virou a própria Amazônia. A Amazônia virou ele. O homem que amou a floresta se tornou árvore — o amapazeiro. "No barro, fruto e madeira, história viva de pé / Quilombo, favela e aldeia na fé." Sidnei resume: "Não há distinção entre Sacaca e o Amapá."

A RECEPÇÃO — "CARNAVAL É CONTAR HISTÓRIA"

A comunidade abraça

No evento "Noite dos Enredos", em agosto de 2024 (na Cidade do Samba), a comunidade mangueirense recebeu oficialmente a proposta. A reação foi de empolgação.

Danilo Firmino, compositor campeão em 2019 com o samba de Marielle, resumiu o sentimento: "A Mangueira vem com um enredo muito importante, que traz uma parte do Brasil a partir da figura do Mestre Sacaca, em um dos últimos estados a serem reconhecidos, lá no Amapá, mantendo as tradições da Mangueira de fazer o bom debate da tolerância religiosa, do reconhecimento às nossas raízes. O enredo da Estação Primeira de Mangueira tem nossas raízes também em Cartola, Carlos Cachaça, Tia Zica."

Tayane Nogueira, torcedora, foi direta: "A importância é para o conhecimento da população, para todos ficarem cientes da história do mestre Sacaca. Carnaval é contar história."

Caio de Brito, morador da Mangueira, vibrou: "Nunca ninguém contou a história do Mestre Sacaca. Trazer isso para o Rio é muito gratificante."

A família de Sacaca se emociona

José Raimundo Souza, o "Do Sacaca" (filho de Mestre Sacaca), ao saber da homenagem, disse: "Não é todo dia que nosso pai será homenageado pela melhor escola de samba do mundo. É Deus quem apontou para a Mangueira homenagear meu pai. Não é o Sacaca, é o estado do Amapá."

O SAMBA-ENREDO

A etapa inédita no Amapá

Aqui a Mangueira inovou. Pela primeira vez na história da escola, uma etapa do concurso de samba-enredo foi realizada fora do Rio de Janeiro. Em agosto de 2025, compositores amapaenses puderam inscrever seus sambas no Museu Sacaca, em Macapá. A iniciativa foi uma parceria entre a escola, o Governo do Amapá (via Secult) e a LIESAP (Liga das Escolas de Samba do Amapá). Sidnei França explicou o objetivo: "Queremos criar oportunidades para que os compositores do Amapá participem deste momento histórico com suas visões poético-musicais a partir de sua própria referência identitária." O vencedor da etapa do Amapá teve vaga direta na semifinal no Rio.

É UM ENREDO "TÍPICO MANGUEIRA"?

A resposta é sim. E não.

Sim, porque segue à risca a metodologia que a Verde e Rosa vem construindo desde 2019:

  • Personagem invisibilizado pela história oficial ✅

  • Brasil não hegemônico (Amapá, extremo Norte) ✅

  • Protagonismo afro-brasileiro ✅

  • Valorização de saberes populares e ancestralidade ✅

A linha é clara:

  • 2019: "Histórias pra ninar gente grande"

  • 2020: "A verdade vos fará livre"

  • 2021: Não houve desfiles (cancelados devido à pandemia)

  • 2022: "Angenor, José & Laurindo"

  • 2023: "As Áfricas que a Bahia canta"

  • 2024: "A negra voz do amanhã" (Homenagem à Alcione)

  • 2025: "À flor da pele – no Rio da negritude entre dores e paixões"

  • 2026: "Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O guardião da Amazônia Negra"

Mas também é não, porque é inédito

Sidnei França é categórico: "Estamos falando de algo inédito na historiografia da Mangueira: tratar de costumes afro-indígenas." É a primeira vez que a escola mergulha na Amazônia Negra. É a primeira vez que a Verde e Rosa se embrenha na cultura afro-indígena. É a primeira vez que a Mangueira vai até o extremo Norte do Brasil buscar personagem. A Mangueira continua sendo a Mangueira. Mas expandiu geograficamente, culturalmente, espiritualmente.

Triênio dos 100 anos

O enredo de 2026 inaugura o triênio do centenário da Mangueira. A escola completa 100 anos em 2028. O que virá em 2027 e 2028 ainda é mistério. Mas uma coisa é certa: a Verde e Rosa segue firme na missão de contar as histórias que a história não conta.

Mestre Sacaca, o Xamã Babalaô, o Guardião da Amazônia Negra, não morreu em 1999. Ele se enraizou onde tudo começa e recomeça. E em 2026, ele desce o Morro da Mangueira rumo à Sapucaí. "Chamei o povo daqui, juntei o povo de lá / Na Estação Primeira do Amapá."