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Lonã Ifá Lukumi – A travessia de um destino em azul, amarelo e branco na Sapucaí
"Lonã Ifá Lukumi" é mais do que um enredo; é uma declaração sobre a força da ancestralidade e a capacidade humana de preservar o essencial, mesmo sob o mais brutal dos regimes.
ESTUDO DE CASO
Igor Schulenburg
2/6/2026
O Carnaval de 2026 se aproxima e, com ele, a expectativa de grandes desfiles na Marquês de Sapucaí. Entre as escolas que prometem emocionar e, acima de tudo, provocar reflexão, a Unidos do Paraíso do Tuiuti se apresenta com um enredo que é um convite à ancestralidade e à resistência: "Lonã Ifá Lukumi". Mas o que exatamente significa essa jornada que a escola de São Cristóvão propõe, tecida em azul, amarelo e branco pelas mãos do carnavalesco Jack Vasconcelos? Para o Arquivo Sapucaí, é fundamental mergulhar na profundidade dessa escolha, a poucos dias do grande espetáculo.
I. Desvendando "Lonã Ifá Lukumi": o oráculo, a travessia e a espera do destino
Desde o anúncio, em junho de 2025, o nome do enredo da Tuiuti para 2026 já despertava curiosidade. Embora possa aparecer em algumas variações como "Lonã Ifá Lucumí", o cerne da proposta é aprofundar-se na cultura iorubá em Cuba, com ênfase no papel fundamental do oráculo Ifá. A aposta é em uma narrativa que transcende o tempo e o espaço, traçando a linha de um destino (Lonã) que se cumpriu e se reinventou, partindo da África para as Américas.
Sob o comando do carnavalesco Jack Vasconcelos, uma figura já consagrada por sua inteligência e sensibilidade em abordar temas de grande relevância, a Tuiuti pretende exibir na avenida a saga dos iorubás levados à força para Cuba – os chamados “lucumis”. Estes, longe de se dobrarem ao jugo da escravidão, conseguiram reconstruir sua fé e cultura em solo estrangeiro, tendo o Ifá como seu guia maior. A sinopse oficial nos revela uma história de "resistência da tradição iorubá em Cuba", onde Ifá é o "oráculo que guia o seu povo, ensinando o caminho do equilíbrio e guardando todos os saberes iorubás". É a celebração de uma África que teimosamente continuou a existir no Caribe, reinventada e vibrante.
O samba-enredo, uma pérola melódica e poética, é assinado por Cláudio Russo, Gustavo Clarão e Luiz Antonio Simas. A escolha de encomendar a obra parece ter dado frutos, resultando em um samba que já é visto como um dos destaques do ano: "Ele dialoga com a temática, sendo considerado um dos sambas fortes do Grupo Especial para 2026". A interpretação potente é do Pixulé, cuja "ótima fase" no carnaval é um testemunho de uma trajetória de excelência.




II. Ifá, Lucumi e a resistência afro-cubana: as raízes de um enredo ancestral
Para compreender a magnitude de "Lonã Ifá Lukumi", é preciso mergulhar nas suas profundas raízes histórico-culturais. Ifá não é meramente um sistema de adivinhação na cosmovisão iorubá; é um corpo de saber que engloba filosofia, mitologia, ética e um complexo sistema de conhecimento. Seus sacerdotes, os babalaôs, são os zeladores e intérpretes desse oráculo que, como a sinopse menciona, "guia o destino de reinos e nações". É a busca por harmonia e o entendimento do destino, onde cada passo é guiado pela sabedoria ancestral.
Os “lucumis”, por sua vez, são os iorubás que foram brutalmente arrancados de suas terras e levados para Cuba. Em meio à desumanização da escravidão, eles foram os guardiões de uma herança cultural que se recusava a morrer. A "travessia forçada" do Atlântico não apagou suas memórias nem sua fé. Pelo contrário, em terra de exílio, "reconstruíram sua religião em segredo, mantendo vivo o Ifá e a língua iorubá"..
Essa resistência deu origem a manifestações culturais e religiosas únicas, como a Santería (também conhecida como Regla de Ocha ou Regla Lucumí). Através do sincretismo, os lucumis associaram seus orixás a santos católicos, uma estratégia inteligente que permitiu a sobrevivência de suas práticas. Figuras como Remígio Herrera (Adechina), um babalaô que reorganizou o culto de Ifá nas Américas após uma jornada incomum pela África, e Carlota Lucumí, líder de uma revolta, personificam essa obstinação pela vida e pela liberdade. É a história de um povo que, pela fé e pela resiliência, provou que a África havia desembarcado em Cuba, pulsante e reinventada.
III. Tuiuti e Jack Vasconcelos: a assinatura da contestação e do olhar social
A escolha do enredo "Lonã Ifá Lukumi" não é um acaso na trajetória recente da Unidos do Paraíso do Tuiuti. A escola de São Cristóvão tem consolidado uma identidade como porta-voz de enredos de cunho social, histórico e de resistência. Como afirmou o presidente Renato Thor, a Tuiuti busca se destacar com enredos que "entrem para a história", reafirmando seu compromisso com causas sociais e a valorização da cultura afro-brasileira.
Essa marca se tornou inconfundível a partir de 2018, com "Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?", que, além de render um vice-campeonato histórico e a melhor colocação da escola no Grupo Especial, gerou um debate nacional e internacional ao conectar a escravidão do passado com críticas à contemporaneidade. A linha foi mantida com o enredo crítico social "O Salvador da Pátria" (2019) e, mais recentemente, com reverências a figuras emblemáticas como João Cândido em "Glória ao Almirante Negro!" (2024) e a primeira travesti não-indígena do Brasil, Xica Manicongo, em 2025.
À frente dessa narrativa está o carnavalesco Jack Vasconcelos, cujo retorno à Tuiuti em 2023 solidificou uma parceria de sucesso. Formado em Belas-Artes, Jack é um artista que se posiciona, utilizando o carnaval como plataforma para o debate. Ele acredita, como já expressou em entrevistas, que o artista tem o dever de "retribuir para a população esse investimento através da arte". Sua "assinatura" é marcada por uma pesquisa aprofundada – fato comprovado pelos múltiplos prêmios de "Melhor Pesquisador" e "Melhor Enredo" – que, para 2026, incluiu uma imersão direta na cultura do Ifá cubano, buscando a autenticidade da vivência. A sua "visão autoral" é o que guia o enredo, dando luz a histórias e culturas muitas vezes marginalizadas.
IV. Pixulé: a voz premiada conduzindo a Tuiuti
A voz que conduzirá a Paraíso do Tuiuti neste percurso é a do intérprete Pixulé. Com uma carreira consolidada há décadas, Roosevelt Martins Gomes da Cunha, mais conhecido como Pixulé, é amplamente reconhecido por sua habilidade vocal e carisma. Sua trajetória é pontuada por uma vasta coleção de prêmios de “Melhor Intérprete”, incluindo múltiplos reconhecimentos em importantes premiações como o Estrela do Carnaval, Gato de Prata e S@mba-Net. Em 2014, o jornal O Globo já o descrevia como "dono de uma das vozes mais elogiadas do carnaval", com uma capacidade de impressionar desde as primeiras palavras. Sua chegada à Tuiuti em 2024 trouxe não só experiência, mas a garantia de uma conexão poderosa entre o samba e o público, essencial para a escola que busca transmitir uma mensagem tão profunda e ancestral.
V.Conclusão
Em um carnaval que se desenha com uma diversidade de propostas, a Paraíso do Tuiuti reafirma sua linha editorial. É uma escola que não teme abordar temas complexos e que se empenha em valorizar culturas e narrativas de resistência. "Lonã Ifá Lukumi" é mais do que um enredo; é uma declaração sobre a força da ancestralidade e a capacidade humana de preservar o essencial, mesmo sob o mais brutal dos regimes. O destino destes "lukumis", guiado pelo Ifá, é agora o destino da Tuiuti na Sapucaí: uma travessia final em busca da glória e, mais importante, do reconhecimento de uma história que precisa ser contada.
