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Eu não queria amar a Beija-Flor, mas não resisti
Minha mãe não está mais aqui pra ver isso. Mas eu imagino ela sorrindo, lá de onde estiver, vendo o filho teimoso finalmente render-se à escola que ela tanto amava.
CRÔNICA
Igor Schulenburg
2/9/2026
Minha mãe era Beija-Flor.
Não desfilava, não. Mas torcia com aquela paixão de quem veste o azul e branco na alma, mesmo morando longe de Nilópolis, mesmo assistindo tudo pela TV. Eu, carioca de nascimento mas catarinense de vida desde os dois anos de idade, cresci vendo minha mãe vibrar com a Deusa da Passarela. E eu? Eu torcia o nariz.
Década de 90. Pra mim, garoto com olhar de criança mas já com opinião formada sobre carnaval, duas escolas me incomodavam: Beija-Flor e Imperatriz. Achava tudo muito burocrático. Muito técnico. Muito "ganha demais". Faltava alma, faltava suingue, faltava... sei lá. Faltava algo que meu coração de menino não conseguia nomear, mas sentia falta.
Passaram-se os anos. Eu virei jornalista, gestor, escritor, influencer. Criei o Arquivo Sapucaí. Mergulhei de cabeça no carnaval carioca, mas sempre com aquele pé atrás com Nilópolis. Gostava de várias escolas — sempre deixei isso claro —, mas a Beija-Flor... a Beija-Flor era a escola da minha mãe. Não a minha.
Até 2025.






QUERIA PAZ, MAS ERA BOM NA GUERRA
Claro que a minha cisma de criança tinha passado. Mas existe um caminho entre "passar a cisma" e acompanhar a escola todo ano com o mesmo carainho que eu sempre acompanhei a Mocidade, por exemplo.
Foi ano passado que tudo mudou.
"Samba João, pra matar a saudade... vem comandar tua comunidade."
Aquilo me pegou. Não sei se foi a melodia, não sei se foi a letra, não sei se foi o jeito que Neguinho da Beija-Flor — em sua despedida — entregou aquele canto como quem entrega a própria vida. Ou se foi pela emoção da escola ao cantar sobre Laíla. Só sei que pegou!
E aí veio o paradão da bateria.
Quem viu, sabe. Quem não viu, não tem como explicar. E talvez até tenha, mas foi o meu momento. Estava sozinho, vendo e paralizei pensando: "a gente sempre, sempre tem novas sensações a descobrir e isso é a fonte da vida". O silêncio foi mais alto que qualquer tambor. E quando voltou, voltou com a força de quem sabe que aquele momento é histórico. Arrepiei.
Mas o que me derrubou de vez foi o desfile das campeãs.
Eu, aqui em Joinville, de longe, vendo pela tela as 8h da manhã. E chorei. Chorei como quem chora quando entende algo que estava guardado há anos. Chorei pela minha mãe. Chorei pelo Laíla. Chorei pela Beija-Flor que eu não queria amar, mas que tinha me conquistado.
A Beija-Flor tinha feito algo que não é comum: me tocou alma.
2026: O SAMBA QUE EU CRAVEI NA PRIMEIRA AUDIÇÃO
Quando a Beija-Flor anunciou o enredo de 2026 — "Bembé", o maior candomblé de rua do mundo, lá em Santo Amaro da Purificação, Bahia —, eu já sabia que seria forte. A linha continuava: ancestralidade, resistência, fé.
Mas samba-enredo é loteria. Às vezes o enredo é lindo e o samba não pega. Às vezes é o contrário. Às vezes a escola erra na escolha. Às vezes acerta e a gente só descobre na avenida.
Eu acompanho as eliminatórias das escolas. É parte do meu trabalho no Arquivo Sapucaí. É parte da minha paixão. Então, quando começaram as disputas internas da Beija-Flor, eu estava lá, ouvindo cada samba concorrente.
E aí eu ouvi.
Não lembro exatamente quando foi. Mas lembro exatamente o que foi.
"Atabaque ecoou, liberdade que retumba
Isso aqui vai virar macumba"
Parei tudo.
Voltei. Ouvi de novo.
"Atabaque ecoou, liberdade que retumba
Isso aqui vai virar macumba"
E na minha cabeça, imediatamente, veio a imagem: 70 mil pessoas na Sapucaí cantando isso no gogó. O atabaque ecoando pela Marquês. A liberdade retumbando nas arquibancadas. E todo mundo, absolutamente todo mundo, gritando:
"ISSO AQUI VAI VIRAR MACUMBA!"
Cravei na hora. Postei. Disse pros meus seguidores. Falei pra quem quisesse ouvir:
"Esse vai ser o samba escolhido".
E olha que as eliminatórias mal tinham começado. E tinha samba pra caramba ainda pra disputar. Mas eu já sabia. Porque tem verso que não mente. Tem melodia que não falha. Tem samba que já nasce sabendo o caminho de casa. E "Bembé" sabia exatamente onde ia parar: na boca do povo.
O samba vencedor acabou sendo uma junção, mas esse verso, que me arrepiou desde a primeira vez, ficou lá. Firme. Forte. Certeiro. Não é só o verso. É o samba inteiro. É a narrativa. É a Sapucaí virando um grande terreiro. É a Beija-Flor fazendo o que ela sabe fazer de melhor.
A BEIJA-FLOR QUE EU APRENDI A AMAR
Minha mãe não está mais aqui pra ver isso. Mas eu imagino ela sorrindo, lá de onde estiver, vendo o filho teimoso finalmente render-se à escola que ela tanto amava. Eu continuo gostando de várias escolas. A Mocidade sempre foi sempre minha número 1. Mas vieram a Vila Isabel, a Unidos da Tijuca, a União da Ilha, e hoje, poderia enumerar outras tantas. Continuo sendo apaixonado pelo carnaval como um todo. Mas a Beija-Flor... a Beija-Flor me conquistou.
Quando ela entrar na Sapucaí, eu, aqui de Joinville, vou estar na frente da TV — como sempre estive, desde criança, ao lado da minha mãe. Mas dessa vez, meu sentimento vai ser diferente.
Porque a Beija-Flor não é mais só a escola da minha mãe.
De certa forma, é minha também.
