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E chegou mais um carnaval!

A verdade é que o carnaval nunca termina de verdade. Ele só descansa. Dorme um sono leve, inquieto, e vai acordando aos poucos — num ensaio técnico, num samba que gruda no ouvido. E quando a gente menos espera, ele está de volta. Inteiro. Enorme. Inevitável.

CRÔNICA

Igor Schulenburg

2/13/2026

Ninguém sabe explicar direito quando começa. Talvez comece no silêncio de uma quarta-feira de cinzas, quando a avenida ainda está quente e alguém já murmura "ano que vem". Talvez comece no primeiro acorde de um cavaquinho numa noite qualquer de quinta-feira, numa quadra de subúrbio, com meia dúzia de gatos pingados e um sonho do tamanho do mundo. Talvez comece na mão da costureira que alisa o tecido pela primeira vez e já enxerga nele a fantasia pronta, brilhando sob a luz dos refletores. A verdade é que o carnaval nunca termina de verdade. Ele só descansa. Dorme um sono leve, inquieto, e vai acordando aos poucos — num ensaio técnico, num samba que gruda no ouvido. E quando a gente menos espera, ele está de volta. Inteiro. Enorme. Inevitável.

E então chega o dia. O ritmista acorda com o coração já tocando antes das mãos. O compositor escuta no rádio aquilo que nasceu numa mesa de bar, rabiscado num guardanapo, e ainda não acredita. O mestre-sala ensaia o último giro diante do espelho, não por vaidade, mas por respeito — porque aquilo ali é sagrado. A porta-bandeira segura o pavilhão como quem segura um filho, com a firmeza de quem protege e a delicadeza de quem ama. A baiana roda. Roda como sempre rodou, como a mãe rodou, como a avó rodou. A comunidade inteira se levanta. O morro desce. O subúrbio acorda. O trem lota. A cidade muda de dono por um instante — e esse instante vale o ano inteiro.

Porque é disso que se trata. É sobre chegar. Atravessar doze meses de luta, de ensaio debaixo de chuva, de barracão sem ar-condicionado, de peça que não ficou pronta, de verba que não veio — e mesmo assim estar ali. De pé. Com o peito aberto e o samba na boca. É sobre aquele segundo antes da bateria começar, quando o silêncio da concentração pesa mais do que qualquer som. E então vem a pancada. E o chão treme. E o corpo arrepia. E nada mais importa.

Chegou mais um carnaval. E quem vive isso sabe: não existe sensação igual. Não existe explicação. Existe apenas a certeza de que valeu cada gota de suor, cada madrugada, cada real contado. Existe o orgulho de vestir as cores da sua escola e saber que aquela alegria não se compra, não se inventa, não se imita. Ela nasce do chão. Da gente. Da vida como ela é. E se o mundo lá fora não entende, tudo bem. A gente não faz carnaval pro mundo entender. A gente faz porque sem isso a gente não sabe viver.