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Deixem a Tijuca ter o direito de não "explodir"
Aristóteles, Paulo Freire, Umberto Eco e a Unidos da Tijuca: uma conversa sobre 2026.
CRÔNICA
Igor Schulenburg
1/31/2026
Tenho acompanhado as análises sobre o samba da Unidos da Tijuca para 2026. O muitas delas, entre os especialistas e a galera do YouTube apontam para: "É uma obra linda, lírica, poética... mas triste. Dificilmente vai 'pegar' na avenida".
Eu entendo o ponto. O carnaval virou uma máquina de BPM, de refrões "chiclete" e daquela explosão obrigatória que a gente aprendeu a chamar de "sucesso". Mas, ouvindo o samba aqui no meu fone, comecei a me questionar: será que essa "tristeza" é mesmo um defeito de fabricação? Ou será que a gente desaprendeu a lidar com qualquer emoção que não seja a euforia?
Resolvi convidar três "amigos" teóricos para sentar na mesa e me ajudar a pensar sobre isso. Não para dizer quem está certo ou errado, mas para olhar essa tal melancolia por outro ângulo.
1. Aristóteles e a tal da "catarse" (ou: a limpeza da alma)
Se a gente voltar lá na Grécia Antiga, Aristóteles já dizia que a arte — especialmente a tragédia — tinha uma função social vital: a catarse. A ideia é que, ao assistir a algo doloroso ou profundo no palco, a gente "expurga" nossos próprios sentimentos. A gente se limpa.
O carnaval sempre teve esse lado de "festa da carne", da alegria desmedida. Mas ele também é ritual. E ritual nem sempre é algazarra. Quando a Tijuca traz a fome e a luta de Carolina Maria de Jesus para a avenida, talvez ela não queira que a gente pule feito pipoca. Talvez o convite seja outro: sentir um aperto no peito, deixar uma lágrima cair e sair do desfile mais leve do que entrou.
Se o samba é "triste", talvez seja porque ele está cumprindo essa função aristotélica de lavar a alma. E num mundo tão barulhento, ter coragem de fazer 70 mil pessoas sentirem essa "tristeza bonita" pode ser muito mais impactante do que qualquer refrão de "laialaiá".
2. Paulo Freire e a tristeza que empurra
Aí entra o segundo ponto. Muita gente confunde tristeza com derrota. Mas quem leu Paulo Freire sabe que existe uma diferença gigante entre a tristeza que paralisa (resignação) e a tristeza que mobiliza (indignação).
O samba da Tijuca não é aquele choro de quem desistiu. Pelo contrário. Quando a letra diz "Muda essa história, Tijuca!", ela está transformando a dor em combustível. É o que Freire chamaria de uma "raiva justa".
Se o samba fosse alegre, saltitante e "pra cima", ele estaria mentindo. A vida de Carolina no quarto de despejo não era "pra cima". Cantar essa história com um sorriso no rosto seria desonesto. A melancolia do samba, nesse caso, é um sinal de respeito. Ela não te joga no sofá; ela te empurra para a briga. É uma tristeza que diz: "Isso dói, né? Então vamos mudar".
3. Umberto Eco e a obra que a gente termina
Por fim, fico pensando nessa profecia de que o samba "não vai pegar". "Pegar" onde? Nos decibéis da TV? Na nota dos jurados?
Umberto Eco falava sobre a "Obra Aberta". Resumindo muito: o artista faz metade do trabalho, o público faz a outra metade. E cada pessoa completa a obra com a sua própria bagagem.
Pode ser que esse samba não faça a arquibancada tremer. Pode ser que ele não "pegue" no sentido de virar hit de churrasco. Mas ele pode "pegar" de um jeito diferente, mais íntimo. Ele pode encontrar eco naquelas pessoas que sabem o que é a dor da fome, ou naquelas que se sentem invisíveis.
A interpretação é intrínseca. Para um crítico focado em técnica, o andamento pode parecer "arrastado". Para alguém que vive a realidade da favela, aquele andamento pode soar como um hino solene, um momento de dignidade. O sucesso de uma obra de arte não se mede só pelo barulho que ela faz fora, mas pelo silêncio que ela provoca dentro.
Conclusão: o risco da beleza
Pode ser que os youtubers estejam certos e a Tijuca perca décimos em Evolução porque o povo não correu. É um risco real. Mas eu prefiro acreditar que existe espaço na avenida para o lirismo.
A tristeza da Tijuca não é rasa. Ela é densa, é histórica e é necessária. E se o preço para contar a história de Carolina com a dignidade que ela merece for "não explodir" a Sapucaí, talvez seja um preço que valha a pena pagar. Afinal, mudar a história nunca foi uma tarefa para quem só quer fazer festa.


