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De todos os tons! De todos os sons!

A Vila Isabel vai lembrar pra todo mundo, mais uma vez, que o carnaval é maior do que conseguimos explicar. Que o samba contém multidões. Que ser de todos os tons e de todos os sons não é contradição, é grandeza.

CRÔNICA

Igor Schulenburg

2/14/2026

A Vila Isabel tem um dom raro entre as escolas de samba: a capacidade de ser muitas coisas ao mesmo tempo sem deixar de ser ela mesma. É uma escola que canta o Brasil inteiro, que abraça todas as culturas, todas as histórias, todos os sons — e ainda assim mantém aquela identidade inconfundível, aquele azul e branco que pulsa nas veias de quem ama o carnaval.

Eu sempre amei os sambas da Vila. Não é questão de escolha, é questão de rendição. Há sambas que você não escolhe amar — eles simplesmente entram na sua vida e não saem mais.

Raízes, de 1987, é um desses. Um samba sem rimas que funciona como hino. Martinho da Vila contando a mitologia Kaapor, a criação das quatro estações do ano através do amor entre Arapiá (o sol, Guaraci) e Numiá (a lua, Jaci). "Verão, calor e luz / Outono, muita fartura / Inverno, beleza fria / Primavera, cores e flores / Para enfeitar o paraíso." É poesia indígena vertida em samba.

Kizomba, a Festa da Raça, de 1988, é quilombo transformado em apoteose. É um dos maiores sambas da história do carnaval, ponto final.

Gbala, que eu vi duas vezes — a original em 1993 e a reedição em 2024 — é delicadeza pura. Martinho de novo, agora contando a criação do mundo com Oxalá adoecendo e as crianças sendo a esperança da humanidade. É um samba que chove ternura e a Vila resgatando, salvando.

E lá se vão tantos outros como "Cara e Coroa, as duas faces da moeda", "A heroica cavalgada de um povo, "Soy loco por tí, América: A Vila canta a latinidade", "Canta, Canta, Minha Gente! A Vila É De Martinho".

E agora, em 2026, a Vila chega com Heitor dos Prazeres.

O samba é considerado um dos melhores da safra. E com razão. Porque ele sintetiza tudo o que a Vila sempre foi. "Sonhei Macumbembê, sonho Samborembá / Macumba é samba e o samba é macumba / Pode até fazer quizumba / Só não pode é separar" — a Vila afirmando mais uma vez que religiosidade afro-brasileira e samba são a mesma coisa, que tentar separá-los é negar a própria essência do carnaval.

"Foi do Lundu e do Cateterê / Alinhou no linho santo, cavaquinho na mão / Apaixonado Pierrot, afro rei / A flecha certeira de Oxóssi na canção" — a Vila mostrando as múltiplas origens do samba, do lundu africano ao cateretê indígena, do sagrado ao profano, de Oxóssi a Noel Rosa.

E aí vem o verso que me pegou. O verso que justifica tudo, que explica por que a Vila é assim, por que ela consegue ser tão grande: "De todos os tons, a Vila, negra é... De todos os sons, a negra Vila é..." Pronto. Está tudo dito. Se eu parasse por aqui, estaria tudo certo.

A Vila é negra, mas é negra de todos os tons. É negra de todos os sons. É uma negritude que não se limita, que não se fecha, que abraça a complexidade toda deste país mestiço, sincrético, contraditório.

A Vila pode cantar mitologia Kaapor em um ano, Oxalá no outro, Tiradentes depois, Angola em seguida, Martinho e Heitor dos Prazeres agora — porque a negritude da Vila é ampla o suficiente para conter tudo isso. Porque o samba da Vila entende que ser negro no Brasil é também ser indígena, é também ser quilombola, é também ser baiano, carioca, nordestino. É ser de todos os tons. É ser de todos os sons.

Heitor dos Prazeres, o multiartista homenageado em 2026, sabia disso. Sambista que fundou cinco escolas, pintor que imortalizou a Pequena África em telas vibrantes, macumbeiro que afirmava sem medo que "macumba é samba e samba é macumba" — Heitor viveu essa amplitude. Circulou entre Portela, Mangueira, Deixa Falar, brindou com Noel Rosa, virou Pierrot Apaixonado, foi ogã de Xangô, tocou cavaquinho, pintou rodas de samba com aquelas cores chapadas de alegria.

E eu, que amo Raízes sem rimas, que me arrepio com Kizomba, que vi Gbala com minha mãe e depois sozinho, que guardo a Heroica Cavalgada no coração — eu só posso render graças a essa escola que consegue ser tão grande sem perder a essência.

A Vila Isabel de 2026 vai lembrar pra todo mundo, mais uma vez, que o carnaval é maior do que conseguimos explicar. Que o samba contém multidões. Que ser de todos os tons e de todos os sons não é contradição — é grandeza.

É ser Vila Isabel.

Raízes de 1987, Gbalá em 1993 e a reedição em 2024