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A União de Maricá e a gestão de excelência
A Maricá parou de tentar "parecer" uma escola grande e passou a se comportar como uma, investindo em um enredo que foge do óbvio e mergulha na história da resistência negra.
CRÔNICA
Igor Schulenburg
1/28/2026
O Carnaval do Rio de Janeiro é, historicamente, um terreno de desconfiança para projetos que ascendem rapidamente com forte aporte financeiro. No entanto, ao chegarmos em janeiro de 2026, a União de Maricá parece ter decifrado o código para converter investimento em legitimidade artística. O enredo "Berenguendéns e Balangandãs" não é apenas uma escolha estética; é o capítulo final de uma transição de marca: a escola deixou de ser uma promessa emergente para se tornar uma potência técnica e intelectual na Série Ouro.
O FIM DA DESCONFIANÇA E A BUSCA PELA LEGITIMIDADE
Durante anos, o debate em torno da Maricá orbitava o volume de recursos vindo do município. Em 2026, a narrativa mudou. A gestão entendeu que o dinheiro compra o material, mas não compra o "respeito" do mundo do samba — este se conquista com escolhas editoriais e humanas. Ao contratar Leandro Vieira, a escola fez um movimento de mestre. O carnavalesco, conhecido por sua densidade acadêmica e olhar popular, trouxe o selo de autenticidade que faltava. A Maricá parou de tentar "parecer" uma escola grande e passou a se comportar como uma, investindo em um enredo que foge do óbvio e mergulha na história da resistência negra.
A ENGENHARIA DO TIME DE ELITE
Do ponto de vista de gestão de pessoas, a configuração da escola para este desfile minimiza as variáveis de erro. É uma equipe montada para garantir a "entrega" do projeto:
Wilsinho Alves na direção: A garantia da engrenagem técnica. O planejamento de barracão da Maricá em 2026 é citado como referência de cronograma, chegando às vésperas do desfile com o projeto finalizado.
Zé Paulo Sierra na voz: O fator emocional. Em uma escola "nova" em busca de identidade, ter um intérprete que é um dos maiores comunicadores da avenida cria o pertencimento necessário entre a comunidade e o asfalto.
Leandro Vieira na criação: A grife que blinda o julgamento artístico. Sua assinatura em "Berenguendéns e Balangandãs" eleva a régua intelectual da Série Ouro, obrigando as concorrentes a repensarem seus próprios critérios de criação.
O BALANGANDÃ COMO MANIFESTO ESTRATÉGICO
A escolha do tema sobre a joalheria crioula e as mulheres pretas de ganho é uma peça de branding poderosa. Ao falar de balangandãs — objetos que compravam alforrias e demarcavam proteção espiritual —, a União de Maricá traça um paralelo implícito com sua própria trajetória: o uso do recurso (o ouro) como ferramenta de liberdade e afirmação. O enredo é sofisticado, visualmente barroco e politicamente urgente. É um desfile que fala de poder, mas sob a ótica de quem o construiu através do trabalho e da fé.
O VAZIO PROBABILÍSTICO E O RIGOR TÉCNICO
No Carnaval, o "vazio probabilístico" — aquele imprevisto que separa o título do erro — sempre existe. Contudo, a Maricá de 2026 reduziu essa margem ao máximo através do rigor nos processos. O samba-enredo é funcional, o barracão é luxuoso e a tese do desfile é blindada por uma pesquisa histórica impecável. Se o objetivo era provar que a escola está pronta para o Grupo Especial, o projeto de 2026 já entregou essa resposta antes mesmo da primeira batida do surdo na Sapucaí.


