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A Série Ouro cresce, mas a Sapucaí não perdoa

A cada ano o abismo diminui um pouco. A Série Ouro de 2026 teve enredos que rivalizavam com os do Grupo Especial pela complexidade e profundidade.

CRÔNICA

Igor Schulenburg

2/16/2026

Tem uma coisa bonita acontecendo nas noites de sexta e sábado da Marquês de Sapucaí. Uma coisa que não aparece nas manchetes do domingo, que não rende trending topic. Mas quem olha com atenção — quem para de verdade pra assistir — percebe: a Série Ouro está se tornando outra coisa. Algo maior do que era. Algo que já não aceita mais ser tratado como preâmbulo do espetáculo principal.

Em 2026, os ingressos para as duas noites esgotaram semanas antes do carnaval. Semanas. Não sobrou arquibancada, não sobrou frisa. A Sapucaí lotou pra ver escolas que, tecnicamente, pertencem à segunda divisão do carnaval carioca. E lotou porque o público sabe — mesmo que os holofotes demorem a reconhecer — que ali dentro tem gente que faz carnaval de verdade. Gente que sangra por cada metro de avenida.

E sangraram.

A sexta-feira abriu com a dor da Unidos do Jacarezinho. A escola sofreu com incêndios que destruiram sonhos. Perdeu parte do que levaria à avenida. Mas não perdeu a vontade. Entrou na Sapucaí sabendo, no fundo, que a disputa já não era mais sua. Entrou pra honrar a comunidade. Entrou pra Xande de Pilares, filho da casa, que veio em cima do carro alegórico como quem sobe ao palco mais importante da vida. E desfilou. Com alas incompletas, com o acabamento que o fogo não permitiu, a Jacarezinho cruzou a passarela. Não como candidata — como sobrevivente. É isso que muita gente não entende quando olha pra Série Ouro de cima: pra algumas escolas, chegar à concentração já é uma vitória. O desfile é o que vem depois da batalha.

Mas a primeiro noita foi mais que isso. A Inocentes de Belford Roxo trouxe o frevo misturado com polca, num enredo criativo comandado pela voz de Ito Melodia.A União do Parque Acari trouxe o enredo "Brasiliana", inspirado no legado de Haroldo Costa, e emplacou o que muita gente considerou o melhor samba-enredo da Série Ouro. A Unidos de Bangu homenageou Leci Brandão, cantora, compositora, deputada — mulher que carrega o samba e a luta no mesmo fôlego. E a União da Ilha, nome de peso do carnaval carioca, mostrou que mesmo fora do Especial mantém a capacidade de mobilizar sua gente e fazer a avenida cantar junto.

So que teve a força bruta de quem desceu pra brigar de verdade. A Unidos de Padre Miguel, rebaixada do Especial no ano anterior numa decisão que boa parte do mundo do samba considerou injusta, voltou à segunda divisão com fome. E quando uma escola grande desce com fome, a avenida sente. O enredo sobre a guerreira indígena Clara Camarão — "Kunhã-Eté: O Sopro Sagrado da Jurema" — veio completo: samba firme, fantasias ricas, alegorias imponentes, comunidade cantando como se cada nota fosse um grito de revanche. Padre Miguel não desfilou; fez uma declaração. Um desfile digno de Grupo Especial.

O sábado respondeu à altura. E quem deu o tom foi o Império Serrano.

A Serrinha tem esse dom. Quando a verde e branco de Madureira resolve homenagear uma figura negra — e principalmente uma mulher negra — alguma coisa acontece na Sapucaí que vai além da competição. Conceição Evaristo, a escritora que inventou o conceito de escrevivência, veio no abre-alas. Não como convidada. Veio como protagonista, como personagem do próprio enredo, do começo ao fim. E a comunidade cantou. Cantou com a garganta e com a alma, levando pela avenida as dores e as flores de uma mulher que nasceu na favela do Pindura Saia, em Belo Horizonte, trabalhou como doméstica e se tornou uma das vozes mais potentes da literatura brasileira. "A gente combinamos de não morrer" — o verso do samba-enredo ecoou como um manifesto, não apenas da escola, mas de toda uma divisão que insiste em existir, em resistir, em mostrar que o samba não tem divisão quando é de verdade.

A segunda noite teve ainda a Estácio de Sá conectando samba e umbanda na homenagem a Tatá Tancredo, a Porto da Pedra com a coragem de dedicar um desfile inteiro às profissionais do sexo, e o Arranco do Engenho de Dentro trazendo à avenida a primeira palhaça negra do Brasil — com a neta da homenageada no último carro. Enredos que, no Grupo Especial, talvez não passassem pelo crivo do patrocinador. Na Série Ouro, passam. E brilham.

E a União de Maricá merece registro — e não pelo acidente que marcou o final do seu desfile. Antes da correria, antes do medo —, Maricá fez um desfile devastador. Era, para muitos, a virtual campeã da Série Ouro. Mas uma alegoria que cruzou a avenida com as luzes apagadas e o tempo que foi se esvaindo mostraram, mais uma vez, que na Sapucaí não basta ter talento — é preciso ter controle. E o carnaval, esse bicho lindo e implacável, não perdoa o detalhe que escapa. A última curva, a dispersão. O "quase".

Olhando o conjunto, a Série Ouro de 2026 contou uma história sobre o Brasil. Contou com menos dinheiro, menos estrutura, menos tempo de TV. Mas contou com mais urgência. Porque quando você tem uma única vaga pra subir e duas pra cair, cada decisão pesa mais. Cada fantasia que falta dói mais. Cada segundo que estoura custa mais caro.

E existe um abismo. É aquele entre o que a Série Ouro oferece e o que o Grupo Especial entrega em termos de acabamento, escala e produção. Não é demérito — é realidade. Uma escola da Série Ouro opera com uma fração do orçamento de uma agremiação do Especial. Os barracões, bem, nem tem como comparar. Que venha a Cidade do Samba 2 com urgência. O Prêmio Fernando Pamplona, dado à Acadêmicos de Vigário Geral pela alegoria "Malassombro sertanejo" — construída com isopor e material doado —, não é apenas um troféu: é o retrato de um carnaval que faz milagre com o que tem.

Mas a cada ano, esse abismo diminui um pouco. A Série Ouro de 2026 teve sambas-enredo que rivalizavam com os do Especial. Teve enredos mais ousados, mais políticos, mais viscerais. Teve uma escola homenageando profissionais do sexo. Teve outra colocando Conceição Evaristo no abre-alas. Teve uma guerreira indígena do século XVII virando protagonista de uma noite inteira. Isso é coragem narrativa. É ousadia de quem sabe que não tem nada a perder — ou melhor, de quem sabe que já perdeu tanto que só resta avançar.

A apuração vem. UPM e Império Serrano são as favoritas. Uma delas deve subir. A outra vai ter que esperar mais um ano, engolir o choro e voltar. Lá embaixo, a Jacarezinho volta para a Intendente Magalhães, levando consigo a cicatriz do incêndio e a dignidade de quem não desistiu. E a Série Ouro vai seguir — crescendo, insistindo, provando que o segundo escalão do samba carioca já não é mais coadjuvante de ninguém.

De ninguém!