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A justa sinfonia de um mestre em vida

A Viradouro, ao honrar Ciça em vida, nos ensina que a maior glória de um artista é ser aplaudido de pé, com o coração batendo no ritmo de sua própria sinfonia.

CRÔNICA

Igor Schulenburg

2/5/2026

No palco sagrado da Marquês de Sapucaí, onde a história do samba é reescrita a cada fevereiro, a Unidos do Viradouro, em 2026, ousa quebrar o silêncio dos paradigmas com uma sinfonia de reconhecimento que ressoa em cada tambor: a homenagem em vida a Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça. É um gesto de rara beleza, um acerto de contas com a própria história, que eleva a arte do Carnaval a um patamar de justiça poética e de profunda emoção para a própria escola.

Quantos mestres, quantos artistas, quantos corações pulsantes do samba não tiveram a chance de ver seu legado celebrado em vida, de sentir o calor da apoteose enquanto ainda regem seus ritmistas? A Viradouro, com a sabedoria de seus 80 anos de fundação, compreende que a gratidão não pode esperar a saudade. É um ato de coragem e sensibilidade, um espelho que reflete a própria alma da agremiação, que se orgulha de seus filhos e de sua história. E assim, com o enredo “Pra Cima, Ciça!”, a escola de Niterói não apenas canta, mas reverencia um de seus maiores filhos, um gigante que moldou o som e a alma de diversas baterias, e que agora, mais do que nunca, se confunde com a própria identidade da vermelho e branco.

Ciça, o menino do Estácio que se tornou passista da Unidos de São Carlos em 1971, riscou o chão e desenhou o samba com o corpo antes de empunhar a baqueta. Sua trajetória é um mapa de inovações e paixões, um percurso que o levou a ser reconhecido como um dos mais influentes mestres de bateria do Carnaval carioca. Foi na Estácio de Sá, em 1989, que ele estreou como mestre de bateria, conquistando seu primeiro título em 1992 com o enredo “Um Dois, Feijão com Arroz”. Ali, ele já mostrava a que veio, com seu “tempero especial” e a ousadia de suspender o som em bossas desvairadas, um prenúncio da revolução rítmica que ele traria para a Sapucaí. Sua batuta, mais do que um instrumento de comando, era uma extensão de sua alma, capaz de extrair dos tambores a mais pura emoção.

Suas “andanças” o levaram a outras grandes escolas – Grande Rio, Unidos da Tijuca, União da Ilha – onde deixou sua marca indelével, imprimindo em cada bateria o registro da ousadia e da cuca antenada. Ciça não apenas regia; ele transformava, inovava, desafiava os limites do que se esperava de uma bateria de escola de samba. Pausas de mil compassos, joelhos abaixo, instrumentos para cima – cada movimento era uma declaração de amor ao ritmo, uma busca incessante pela levada perfeita. Mas foi na Viradouro que ele encontrou um lar para suas maiores glórias, conquistando dois campeonatos (2020 e 2024), elevando suas peças ao patamar do impossível e levando a arquibancada ao êxtase com toques de magia que se tornaram sua assinatura.

E agora, em 2026, a “loucura” genial se manifesta em sua plenitude: Mestre Ciça será o enredo e, ao mesmo tempo, regerá a bateria que será julgada. Ele, que dedicou 55 de seus 70 anos à música, estará no centro do furacão, sendo aclamado e avaliado pelos quesitos que ele mesmo ajudou a definir e aprimorar. A harmonia, a evolução, a bateria – tudo o que ele respira e vive – será um espelho de sua própria história. É uma metalinguagem emocionante, um mergulho profundo na essência do samba, onde o criador se torna a própria criação. A tensão de ser julgado, a emoção de ser celebrado, a ironia de ser o tema e o maestro ao mesmo tempo – tudo isso se funde em um momento único, que promete ser um dos mais marcantes da história recente do Carnaval. A Viradouro, ao colocar seu mestre no centro do seu próprio enredo, não apenas o homenageia, mas se permite uma reflexão profunda sobre o que significa ser escola de samba, sobre a relação entre a comunidade e seus ícones.

Essa homenagem é mais do que um reconhecimento; é um lembrete poderoso de que a arte e a cultura são construídas por pessoas, por mestres que dedicam suas vidas a elas. É um grito de “obrigado” que ecoa pelos morros e avenidas, celebrando a paixão, a disciplina, o improviso e a generosidade de um homem que é, em si, uma escola de samba inteira. A Viradouro, ao honrar Ciça em vida, nos ensina que a maior glória de um artista é ser aplaudido de pé, com o coração batendo no ritmo de sua própria sinfonia. É um legado que se constrói a cada batida, a cada sorriso, a cada lágrima de emoção na avenida. Pra Cima, Ciça! Que os tambores de 2026 rufem para você, e que sua justa sinfonia seja eterna, ecoando por muitos e muitos carnavais.