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A estrela que precisa voltar a brilhar

Uma escola que nunca pediu licença. Que foi campeã contando a própria história. A Mocidade e Rita Lee têm a mesma alma: irreverente, livre, da Vila Vintém pro mundo.

CRÔNICA

Igor Schulenburg

2/11/2026

Seis títulos. Uma bateria que é patrimônio cultural. Uma quadra que é um templo do samba carioca. A Mocidade Independente de Padre Miguel já escreveu seu nome na história do carnaval carioca com letras maiúsculas. Mas os últimos anos foram difíceis. Na verdade, faz algum tempo que, vira a mexe, a escola perde o fio — desfile por desfile, resultado por resultado. Em 2022, um samba que merecia mais, num desfile que entregou menos. Em 2023, "Terra de meu céu" que não emplacou como se esperava. Em 2024, o Caju.

Ah, o Caju...

"Pede Caju Que Dou… Pé de Caju Que Dá!" era um enredo gostoso, brasileiro, legítimo. O samba foi aclamado — um dos mais bonitos do ano. A escola abriu a noite de segunda-feira no dia em que Castor de Andrade faria 98 anos. Parecia que os astros estavam alinhados para uma virada.

Décimo lugar.

E em 2025, com Renato Lage e Márcia Lage de volta a escola trouxe um enredo futurista, ousado, com robô gigante e painéis de LED. A comissão de frente ganhou o Estandarte de Ouro. E o resultado?

Décimo primeiro lugar. Penúltimo. A um passo do abismo.

A Mocidade reclamou dos jurados. As redes reclamaram junto. Mas o fato estava ali, duro e frio: a Estrela Guia estava apagada. E então veio Rita.

O anúncio foi no dia 22 de maio de 2025 — Dia de Santa Rita de Cássia, o "aniversário afetivo" da própria cantora. Óculos vermelhos gigantes espalhados pela Lapa, pelo Largo da Carioca, pelo Museu do Amanhã. Não foi lançamento de enredo. Foi recomeço. Renato Lage, o carnavalesco mais vitorioso da história da escola — três títulos, dois vice-campeonatos — assumiu sozinho o barracão pela primeira vez sem Márcia ao lado. E escolheu Rita Lee. A ovelha negra. A padroeira da liberdade. A mulher que nunca pediu licença pra ser quem era.

Difícil não enxergar o espelho.

Uma escola que também nunca pediu licença. Que inventou a paradinha. Que foi campeã contando a própria história. Que reinventou a estética do carnaval carioca. A Mocidade e Rita Lee têm a mesma alma — irreverente, livre, da Vila Vintém pro mundo.

O samba veio a cara da própria Rita, digo, da própria Mocidade. As músicas de Rita entraram na letra como se sempre fossem samba — Lança Perfume, Doce Vampiro, Desculpe o Auê, Caso Sério — costuradas com naturalidade por uma parceria de dez compositores, entre eles Xande de Pilares. O intérprete Igor Vianna carrega o sobrenome como herança viva: seu pai Ney Vianna cantou pra Mocidade nos anos 70 e 80 e foi campeão em 1985.

E no meio de tudo isso, um grito que vai parar a Sapucaí: "Não adianta prender — Santa Rita Leeberdade!"

A Mocidade entra na avenida na segunda-feira. E entra com esperança. Pressionada? Talvez. Mas prefiro pensar que mais leve. Com a leveza de quem parece ter se reencontrado. E tomara que tenha. O independente merece ver de novo o brilho da estrela guia, que talvez ele próprio achou que poderia ter se apagado.