Desfiles catalogados em playlists, ano a ano, em um único lugar, pra você ver a hora que quiser.
A engrenagem do Carnaval não para
Hoje, a notícia de uma saída é publicada nas redes antes do café da manhã de quinta-feira. Antes do meio-dia, o substituto já foi anunciado. Antes do fim de semana, a escola seguinte já respondeu contratando alguém que saiu de uma terceira. É um efeito dominó em tempo real.
CRÔNICA
Igor Schulenburg
2/28/2026
A quarta-feira de cinzas ainda não amanheceu e os telefones já tocam.
Não é mensagem de ressaca, nem saudade antecipada da Avenida. É o carnaval do ano que vem batendo na porta antes que o desse termine de ser varrido da pista. A confete ainda gruda no asfalto da Sapucaí, as notas ainda não foram lidas, e em algum lugar alguém já está dizendo sim pra uma escola e não pra outra.
É a dança das cadeiras. A tradição do pós-carnaval.
Todo ano é assim. Mas nem todo ano é assim.
Há temporadas em que a dança é protocolar: renova aqui, ajusta ali, segue o baile. E há temporadas em que o chão parece se abrir debaixo de todas as escolas ao mesmo tempo. Em que a quantidade de saídas, chegadas, trocas, retornos e despedidas faz a cabeça girar.
E estamos passando por uma temporada dessas.
O que move essa engrenagem? Parte da resposta está no regulamento. A cada ano, a régua sobe. Os quesitos ganham subdivisões. As justificativas se tornam obrigatórias. A nota dez, que um dia foi o teto natural de um grande desfile, virou a única nota aceitável — qualquer coisa abaixo dela é derrota. Não basta mais ser bom. É preciso ser impecável em cada centímetro da Avenida, em cada compasso, em cada pluma que balança num chapéu de ala.
E quando a impecabilidade vira a única moeda de troca, o custo da imperfeição dispara. Um décimo perdido pode ser a diferença entre o título e o sexto lugar. Entre o Desfile das Campeãs e a reformulação total. Entre a continuidade de um trabalho e o encerramento abrupto de um ciclo.
Então, as escolas reagem como qualquer organismo sob pressão: mudam. Depressa. Às vezes antes mesmo de entender o que deu errado.
A velocidade é o que impressiona. Não a mudança em si — o carnaval sempre foi feito de ciclos, de idas e vindas, de profissionais que constroem histórias em uma escola e depois levam sua arte pra outra. Isso é da natureza da coisa. É o que mantém o ecossistema vivo, o que renova ideias, o que impede a estagnação. É o sangue circulando.
Mas a velocidade com que isso acontece agora tem algo de vertiginoso.
Antigamente, a dança das cadeiras durava semanas, às vezes meses. As conversas aconteciam em mesas de bar, em reuniões de quadra, em telefonemas longos. Havia tempo pra digerir uma saída, pra entender uma chegada, pra processar o luto de um ciclo que se encerrava antes de iniciar o próximo.
Hoje, a notícia de uma saída é publicada nas redes antes do café da manhã de quinta-feira. Antes do meio-dia, o substituto já foi anunciado. Antes do fim de semana, a escola seguinte já respondeu contratando alguém que saiu de uma terceira. É um efeito dominó em tempo real, acompanhado por milhares de pessoas que comentam, cobram, especulam e pressionam — tudo ao vivo, tudo público, tudo imediato.
O profissional que na terça-feira estava na pista, suado, emocionado, dando tudo de si, na quinta já lê um comunicado institucional sobre a própria saída. Ou escreve o seu. E na sexta já negocia com outra escola, porque a roda não espera.
E no entanto, é preciso dizer: essa roda é também o que dá vida ao carnaval.
Cada troca carrega dentro de si uma promessa. O veterano que volta a uma escola onde já foi feliz carrega a esperança de um reencontro. O jovem que recebe uma oportunidade onde ninguém esperava carrega o frescor de quem ainda não tem medo. A escola que desmonta e remonta está dizendo, no fundo, que acredita no ano seguinte. Que não desistiu. Que a derrota desse carnaval não é o ponto final — é a vírgula antes do próximo capítulo.
É isso que move as quadras, os barracões, as comunidades. Mas há uma pergunta que insiste em ficar, quieta, no canto da quadra vazia enquanto as luzes se apagam.
Quando a busca pela nota dez faz com que tudo precise mudar em quarenta e oito horas. Quando o medo do décimo perdido pesa mais que a memória do desfile inteiro. Quando o ciclo que deveria ser natural passa a ser atropelado pela urgência de resultados — o que se perde no caminho?
Talvez nada que se perceba de imediato. Talvez apenas o tempo de respirar. O tempo de olhar pra trás antes de olhar pra frente. O tempo de sentir o peso do que acabou antes de começar a construir o que vem.
A máquina não para. Nunca parou. E talvez não deva parar.
Mas entre um ciclo e outro, entre uma quarta-feira de cinzas e o primeiro ensaio técnico, existe um silêncio que ninguém ouve. É nele que mora o carnaval que não cabe na planilha de notas. O que não se mede em décimos.
O que simplesmente se sente.
E sentir, cada vez mais, exige um luxo que o calendário já não oferece:
Tempo.
